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Furtiva

Vivo-te furtiva

habitando um teu indício

como se houvesse outras de ti.

És insígnia do medo e da ternura,

da desordem de vazios vibrantes,

fora, dentro e sempre, da loucura.

*

És o extremo da incerteza,

minha morada

que sob a luz selada

tenta-se enigma na ruptura da leveza.

*

Vivo-te furtiva

para atravessar o insensato

até tudo ser de fato

apenas um teu indício.

Ventos

Redemoinho

que sopra em semitom

no meu compasso.

Letícia

Ainda ontem

o melhor pedaço de mim

era só toda a alegria.

Mas para que de mim

nada o separe

é agora também

todo o amor

que eu não sabia.

A forma mais perfeita

Um dia, faz muitos anos,

a menina sonhou promessas

com a forma mais perfeita

da lucidez da infância.

*

Agora, nas pedras do passeio,

escorrem saudades…

Uma promessa precisa de tempo,

invernos e verdades

até ser pormenor de esquecimento.

No céu da boca

Quando aqui dentro

é preciso perder o sopro

pra agradecer

o respirar,

 desarrumo o verbo,

desafio a palavra

e invento ares

– pra variar…

Dias de Janeiro

Assim os dias,

 numas brisas de brandura,

desnudam

o pouco acanhado de mim.

Fragmento

 

O meu sonho assim é que me quer

: apenas um espasmo!

 

Um fragmento narrativo

de poesia e circunstância

que palpita nesse morrer constante

entre o gozo e o espanto

pelo tempo em que se sustente a ficção.

 

O meu sonho assim é que me quer

: apenas um bocado de mundo

que habita o aconchego do inequívoco,

solúvel na certeza da vida que não basta.

 

E não há limites para ela…

 

Nesse tempo de existir qualquer,

por hábito ou falta de coragem,

o meu sonho assim é que me quer.

Nesse mundo que não é meu

Fosse capaz de viajar

para longe do mundo que me oferecem,

adiante dos prazeres

onde todos se recolhem

e visitar enganos que se bastam,

deixar-me-ia ficar.

.

Nesse mundo que não é meu

arrancaria palavras

ou raízes dos meus ruídos

uns e outros,

todos talvez, e

deixar-me-ia ficar.

 .

Fosse capaz de partir

inocente do perigo,

para fazer brotar da alma

dores que não dizem

a que vem,

deixar-me-ia ficar.

.

Ah, deixar-me-ia ficar

só mais um pouco,

em puro desperdício,

neste ser abstrato

dentro do qual eu verso.

O jogo deles

 

“Eles estão jogando o jogo deles.

Eles estão jogando de não jogar um jogo.

Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão,

quebrarei as regras do jogo

e receberei sua punição.

O que devo, pois,

é jogar o jogo deles,

o jogo de não ver o jogo que eles jogam”.

Poetry by Dr. R.D. Laing

O poeta do desassossego

 A associação cultural Art Institute leva Fernando Pessoa e seus heterônimos para o MoMa, Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

Com o ciclo “Pessoa in New York”, a organização cultural reunirá uma série de conferências e leituras entre os dias 13 e 17 de abril, assim como a exibição do filme “O livro do desassossego”, de João Botelho.

 

Ela

Picture by Kiyo Murakami Picture by Kiyo Murakami

Quando ela chama,

fundem-se seus gestos

em todos os meus versos.

Seu toque ardente encanta,

gracioso, quase perverso

– chama.

No limite

Picture by Fitra Pranadjaja Picture by Fitra Pranadjaja

E o corpo gira

no ponto da histeria.

Fora do eixo

tudo se encaixa

: imaginário!

O vendedor de sinos

Fotografia: Itaciara Poli Fotografia: Itaciara Poli

Conheço o dialeto do tempo

tal como os sinos

que badalam vãos

ao som do pensamento.

 .

É o único que aprendi

e desde logo a tua ausência.

 .

No espaço de um segundo

é que envelhece o tempo;

concentra em si o mundo,

devora o sentimento.

Confidencial

Picture by Jack Vettriano Picture by Jack Vettriano

Fico contigo

pra não dizer adeus

: é uma secreta elegância.