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O jogo deles

 

“Eles estão jogando o jogo deles.

Eles estão jogando de não jogar um jogo.

Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão,

quebrarei as regras do jogo

e receberei sua punição.

O que devo, pois,

é jogar o jogo deles,

o jogo de não ver o jogo que eles jogam”.

Poetry by Dr. R.D. Laing

Incômodo e mordaz

“Supplica a mia madre”, poesia di Pier Paolo Pasolini

.

Em Mamma Roma, a dramaturgia mordaz de Pier Paolo Pasolini veste-se de paixão e controvérsia e nos aproxima do que eu chamo de realidade sem lacunas, fugas ou resistência.

Sim, uma realidade explícita sem contornos coloridos ou levianos. A sobrevivência desmontada pela marginalidade, onde as personagens, irrequietas, tentam sobreviver a uma Itália traumatizada e desiludida.

Pier Paolo, egresso poeta, diretor e ateu confesso, provoca uma guerra artística ao experimentar um longa-metragem que critica os dogmas cristãos num preto e branco expressivo.

O teor complexo e perturbador que coloca o expectador em xeque na medida em que usurpa a essência divina e desfila o desmantelamento de valores morais e religiosos.

Um filme intenso, mas ao mesmo tempo humano e irresistível, na sua impossibilidade de passar despercebido.

Ilusão ou Realidade?

T. Williams by Yousuf Karsh T. Williams by Yousuf Karsh

Depois de muito tempo pude rever a adaptação cinematográfica de “A Streetcar Named Desire”,   dirigida por Elia Kazan (1951). A peça original foi escrita pelo dramaturgo norte-americano Tennessee Williams e venceu o Prêmio Pultizer em 1947.

Segundo creio eu, essa é uma daquelas obras bem-sucedidas sobre as quais o tempo não atua.

Ouso dizer que é sempre uma novidade, já que nunca envelhece. E talvez isso aconteça porque Tennessee impregnou a narrativa de recorrentes conflitos que espelham com maestria o sustentáculo de alguns dos nossos principais requisitos de sobrevivência, tais como o desejo e o poder. Elaborados e, ao mesmo tempo, notoriamente primitivos, tais requisitos demandam uma energia brutal de cada um de nós.

A realidade nos escapa!

No afã de sobreviver a essa sociedade onde o desejo pela ilusão é cada vez maior, muitas vezes vemo-nos agir como a personagem principal da trama: Blanche DuBois, uma bela e misteriosa mulher com pretensões de virtude e cultura que, através da fantasia, busca dissimular, para si mesma e para os outros, a realidade.

Assim como a peça teatral, o filme é uma obra-prima repleta de personagens complexas, que trazem em sua essência o desejo ardente de reconciliação com a própria verdade.

Vacuidade Essencial

Os sinais de uma epidemia do vazio estão por toda parte. Ora, quem prestar atenção à realidade cultural hodierna logo percebe a contaminação desenfreada por um vácuo que nos cerca e faz penetrar em nós, através do comportamento e do discurso, uma espécie de inutilidade fundamental.

Como um hábito social dominante, as taras da multidão são os vetores perfeitos para o vírus da falta de nexo e conteúdo; e são elas a garantir a presença irremediável do nada na modernidade que percorre, paralelamente, caminhos completamente contraditórios.         De um lado, um novo iluminismo repleto de significação e liberdade.       Do outro, a falta de critério que desconstrói o bom senso mediante o esgotamento da vontade de pensar.

Mas esse enfrentamento é especialmente curioso no momento em que somos, desde o nosso nascimento, constantemente possuídos por esse paradoxo arquetípico e sempre muito perturbador, resistente ao espírito, como um estigma que haverá de nos acompanhar a vida inteira.

É evidente que, enquanto espécie pensante e social, estamos enredados num conjunto de particularidades intelectuais, sociais e culturais que, per se, são conflitantes.  E é justamente por isso que permitimos inconscientemente que tais vazios façam parte do nosso cotidiano, sem saber que são instrumentos indispensáveis à sobrevivência de uma civilização. De fato, como dizia Almada Negreiros, “não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura”.

E se toda cultura é repleta de vazios, então não é exagerado dizer que não podemos habitar a vastidão bestial dessa vacuidade, pois não somos superiores a ela e ainda que fôssemos não sobreviveríamos à austeridade da razão.

A vida é um sopro

in memoriam 

Oscar Niemeyer ( Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 1907 – Rio de Janeiro, 05 de dezembro de 2012).

 

Venuto al mondo

A partir do próximo dia 08 já podemos conferir no grande ecrã a adaptação de mais uma obra-prima de Margaret Mazzanttini.

Venuto al mondo”, o livro vencedor do Prêmio Campiello 2009 e definido pela própria autora como uma estória que fere, trata-se, na verdade, de uma obra ambiciosa e marcante que nos convida a refletir sobre a esperança da juventude, a decadência das distâncias e, principalmente, o amor absoluto e suas guerras.

O filme, com diversas cenas ambientadas em Sarajevo, propõe-se a sustentar o mesmo impacto do romance em toda a sua crueldade e ternura e conta com uma parceria de grande sucesso, uma vez que o trio Margaret Mazzanttini (escritora), Sergio Castellitto (ator/diretor e marido de Margaret) e Penélope Cruz (atriz) já surpreendeu anteriormente com o filme “Non ti muovere” – um resultado feliz de adaptação literária para o cinema.

25

jul
2012

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Literatura
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Fiel ao sonho

Picture: Brooke Shaden

O fato é que decidi aventurar-me na escrita! E não só: devo reconhecer que as coisas que leio são para mim muito mais importantes do que as que escrevo. Sim, um lúcido delírio! Simplesmente porque, como disse Jorge Luis Borges, “lemos aquilo de que gostamos – mas não escrevemos o que gostaríamos de escrever, apenas o que podemos escrever”.[1]

O leitor é pessoa mais feliz, já que a leitura é ato sublime e inconsciente em busca da satisfação.

O escritor, por sua vez, sofre de um tormento de dores indizíveis, de uma vocação patológica empenhada em encontrar certo prazer transcendental, perdido nos artifícios da invenção: a felicidade de escrever.

Por sua essência o ato de narrar torna o escritor o algoz e a vítima de si mesmo… Pois sofre de uma espécie de “doença autêntica e completa” [2] que brinca com a ideia, manipula a imaginação e, não obstante os fatos, procura seguir fiel ao sonho.



[1] BORGES, Jorge Luis. “Este Ofício de Poeta ”. Lisboa: Editorial Teorema, 2010.

[2] DOSTOIÉVSKI, Fiodor. “Memórias do Subsolo”. [1864], trad. Boris Schainerdan. São Paulo: Editora 34, 2000.

31

mai
2012

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Literatura
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Momentum fictício

Há quem acredite que escrever seja apenas o ato de rabiscar sentimentos ou descrever emoções, de modo que se possa adulterar o cotidiano, dando-lhe novos contornos, quem sabe mais poéticos ou passionais. Nesse sentido, procuro ser mais cautelosa… Definitivamente a literatura pra mim é algo mais complicado. Quando escrevo, por exemplo, faço-o a partir do ermo de um instante, de uma fração de tempo muitíssimo pequena e delicada que eu costumo chamar de momentum fictício. Nesse gesto autenticamente solitário, esforço-me por organizar meu pensamento a fim de evitar que aflorem sinceridades tardias, vontades arrependidas ou trivialidades vazias. E sinto-me absolutamente vulnerável, pois, como dizia Clarice Lispector, “tudo me atinge – vejo demais, ouço demais, tudo exige demais de mim”.

28

mai
2012

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Mashup

By: Austin Kleon

Bem legal o livro “Steal like an artist”, novo best seller de Austin Kleon.
A proposta é divertida no momento em que o autor, que se define como um escritor que desenha, traz um manifesto ilustrado que lista as dez coisas que qualquer jovem criador deveria saber, mas que na maioria das vezes ignora.

Segundo Austin nada é totalmente original, pois tudo se resume a uma combinação de coisas, já que cada nova ideia seria um mix de ideias anteriores.

 


15

mai
2012

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Melodia

As letras melódicas somadas à voz sofisticada de Nadia Mladajo produzem música de qualidade!

Mais conhecida como Imany (fé), a lindíssima cantora nascida no arquipélago de Comores diz-se inspirada por nomes como Billie Holiday, Tracy Chapman e Nina Simone.

O álbum “The Shape of a Broken Heart” atingiu a primeira colocação no iTunes apenas cinco dias após seu lançamento em 2011 e no mesmo ano foi premiado com o disco de ouro na França.

Singer: Imany


08

mai
2012

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Música
Opinião

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Bang-bang

A consagrada banda portuguesa Dead Combo é realmente um combinado que deu certo!

É com ausência de esforço que a sonoridade espontânea parece nos transportar para os filmes de faroeste e suas paisagens selvagens e inóspitas…

Atualmente a dupla Tó Trips e Pedro Gonçalves faz turnê por diversos países para divulgar o álbum “Lisboa Mulata”, que acrescenta elementos de música africana, tango e flamenco.

 

 


26

mar
2012

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É o fim do caminho

As águas de março se foram e com elas seus nomes, nas correntezas do inevitável… Pois é! Este mês foi o fim do caminho para três grandes artistas que admiro muito.

É incrível como em alguns momentos torna-se evidente o mundo que se desfaz aos poucos à nossa volta, deixando-nos, como costuma dizer António Pina[1], “do lado de cá de qualquer coisa”, perigosamente desamparados num abrigo aberto pela ausência.

Antonio Tabucchi
(Vecchiano, província de Pisa, 24 de setembro de 1943 – Lisboa, 25 de março de 2012), escritor italiano, professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Siena.

Claro que enquanto a perda é distante e não nos diz respeito intimamente, a dor é leve e, por ser alheia, esvai-se em breve, nas recordações cada vez mais remotas…

Chico Anysio
(Maranguape, 12 de abril de 1931 — Rio de Janeiro, 23 de março de 2012), humorista, ator, dublador, escritor, compositor e pintor brasileiro.

Mesmo assim, é inegável que se cria um hiato desconcertante, talvez imperfeito, quando a metáfora inevitável da morte se apodera ilicitamente do mundo com o qual estávamos habituados, levando consigo a desproporção do fim.

Lucio Dalla
(Bolonha, 4 de março de 1943 — Montreux, 1 de março de 2012), cantor e compositor italiano.

 


[1] ] Manuel António Pina in “Por outras palavras & mais crônicas de jornal”, 2010.

24

fev
2012

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Fotogorafia
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iPhotos!

Iphoneography: Itaciara Poli

O número de pessoas que utilizam o iPhone para fotografar aumenta dia após dia, num momento em que a tecnologia sofre transformações rápidas e, ao mesmo tempo, radicais.

Iphoneography: Itaciara Poli

E embora a lente do aparelho não alcance o desempenho das câmeras profissionais, a abundância de aplicativos à disposição no mercado está criando um verdadeiro alvoroço entre fotógrafos profissionais. Tanto que, para complicar ainda mais, hoje já é possível adquirir diferentes tipos de lentes e tripés próprios para iPhone.

Iphoneography: Itaciara Poli

A controvérsia está em pauta nos mais diversos workshopsde fotografia e divide opiniões ao por na mesa os prós e contras do “Iphoneography”, essa nova maneira de fotografar!

O Absoluto vende bem

Na qualidade de manifestações contingentes, somos seres que, para existirmos, dependemos de condições ainda não estabelecidas no seu todo. Somos destinados, portanto, a ser ou não ser num único instante, porque a qualquer momento podemos deixar de existir.

Essa efêmera condição nos conecta profundamente com a necessidade de imaginar uma bengala que nos ampare, que impeça a nossa queda e sustente a imortalidade da alma, tornando inevitável a busca do que é ab solutus.

Por isso temos a visão desta unidade indissolúvel que existe em si e por si, sem a necessidade de nenhuma outra para existir. Algo como uma prima causa, independente por si, mas que nos mantém completamente dependentes dela.

Neste momento do século XXI sentimos indispensável a idéia do Absoluto, pois como bem explica Umberto Eco[1], parece que o Absoluto vende bem, já que “é a alternativa de qualquer coisa que nós não somos e que está noutro lado, não dependendo de nós”.

Pessoalmente, devo exprimir a convicção de que sou incapaz de saber dizer o que é o Absoluto, uma vez que posso apenas verificar verdades objetivamente alcançáveis, válidas para todos nós. No entanto, acredito que ao sairmos de um estado natural para um estado cultural, nos encontramos num ponto incontornável onde as funções da verdade e da lógica jamais serão absolutas.


[1] Umberto Eco in Costruire il nemico e altri scritti occasionali, RCS Libri S.p.A. – Milão Bompiani, 2011.