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O jogo deles

 

“Eles estão jogando o jogo deles.

Eles estão jogando de não jogar um jogo.

Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão,

quebrarei as regras do jogo

e receberei sua punição.

O que devo, pois,

é jogar o jogo deles,

o jogo de não ver o jogo que eles jogam”.

Poetry by Dr. R.D. Laing

Vacuidade Essencial

Os sinais de uma epidemia do vazio estão por toda parte. Ora, quem prestar atenção à realidade cultural hodierna logo percebe a contaminação desenfreada por um vácuo que nos cerca e faz penetrar em nós, através do comportamento e do discurso, uma espécie de inutilidade fundamental.

Como um hábito social dominante, as taras da multidão são os vetores perfeitos para o vírus da falta de nexo e conteúdo; e são elas a garantir a presença irremediável do nada na modernidade que percorre, paralelamente, caminhos completamente contraditórios.         De um lado, um novo iluminismo repleto de significação e liberdade.       Do outro, a falta de critério que desconstrói o bom senso mediante o esgotamento da vontade de pensar.

Mas esse enfrentamento é especialmente curioso no momento em que somos, desde o nosso nascimento, constantemente possuídos por esse paradoxo arquetípico e sempre muito perturbador, resistente ao espírito, como um estigma que haverá de nos acompanhar a vida inteira.

É evidente que, enquanto espécie pensante e social, estamos enredados num conjunto de particularidades intelectuais, sociais e culturais que, per se, são conflitantes.  E é justamente por isso que permitimos inconscientemente que tais vazios façam parte do nosso cotidiano, sem saber que são instrumentos indispensáveis à sobrevivência de uma civilização. De fato, como dizia Almada Negreiros, “não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura”.

E se toda cultura é repleta de vazios, então não é exagerado dizer que não podemos habitar a vastidão bestial dessa vacuidade, pois não somos superiores a ela e ainda que fôssemos não sobreviveríamos à austeridade da razão.

Histórias de Filosofias

Idealizado pelos cartunistas Francois Benoit e Damien Cuypers, “Histórias de Filosofias” é um projeto que vai contrastar a filosofia de diferentes pensadores de uma maneira simples e divertida através de diversos curtas de animação.

A ideia de cada desenho animado se resume ao esquema abaixo que é dividido em duas partes onde dois filósofos defendem suas teorias utilizando o mesmo objeto.

1 Filósofo   +   1 Objeto   +   1 Minuto   =   1 Cartoon

Neste primeiro episódio René Descartes e Friedrich Nietzsche confrontam suas convicções utilizando um lápis.

[Via  Histoires de Philosophies]

19

mar
2012

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Filosofia
Poesia

By admin

Tempo

Viviane Mosé

O Absoluto vende bem

Na qualidade de manifestações contingentes, somos seres que, para existirmos, dependemos de condições ainda não estabelecidas no seu todo. Somos destinados, portanto, a ser ou não ser num único instante, porque a qualquer momento podemos deixar de existir.

Essa efêmera condição nos conecta profundamente com a necessidade de imaginar uma bengala que nos ampare, que impeça a nossa queda e sustente a imortalidade da alma, tornando inevitável a busca do que é ab solutus.

Por isso temos a visão desta unidade indissolúvel que existe em si e por si, sem a necessidade de nenhuma outra para existir. Algo como uma prima causa, independente por si, mas que nos mantém completamente dependentes dela.

Neste momento do século XXI sentimos indispensável a idéia do Absoluto, pois como bem explica Umberto Eco[1], parece que o Absoluto vende bem, já que “é a alternativa de qualquer coisa que nós não somos e que está noutro lado, não dependendo de nós”.

Pessoalmente, devo exprimir a convicção de que sou incapaz de saber dizer o que é o Absoluto, uma vez que posso apenas verificar verdades objetivamente alcançáveis, válidas para todos nós. No entanto, acredito que ao sairmos de um estado natural para um estado cultural, nos encontramos num ponto incontornável onde as funções da verdade e da lógica jamais serão absolutas.


[1] Umberto Eco in Costruire il nemico e altri scritti occasionali, RCS Libri S.p.A. – Milão Bompiani, 2011.

Notas de rodapé

Mary Dinkle by Harvie Krumpet

Devo criar?

Como não é de admirar, a relutância desse tipo de tormento é bastante comum na medida em que ao escrever e mergulhar nas minhas profundidades, observo-me com certo desdém e até ceticismo.  Funciona como um artifício de autodestruição preventiva no qual enuncio a minha mediocridade antes que outros o façam.

E com um pouco mais de atenção e honestidade, percebo que aquela pergunta faço também a eles (os outros), como se o que mais me interessasse fossem as notas de rodapé de suas críticas.

É aí que a criação assume o sabor avinagrado de ser colocada em segundo plano, completamente banida de sua virtude essencial.

Mas a pergunta decisiva permanece e então logo vem a resposta que se resume na amadora apaixonada que vai continuar a espreitar e, sem falsa modéstia, recolher-se ao abrigo do que é verdadeiro ou ao menos tentar.

Só queria poder ter a certeza de não impor como condição nenhum tipo de reconhecimento ou aceitação às minhas brincadeiras débeis de inspiração.

 

 


[1] Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta